UM CONVITE A PRÁTICA DE ECODARMA

Exercícios inspirados no Trabalho que Reconecta

Por Nathalia Manso


Antes de começar essa leitura, um convite: Feche os olhos e pense na natureza.  

Pensou em você? É comum que quando somos convidados e convidadas a pensar na natureza, a gente imagine algo fora de nós. E, muitas vezes, longe de nós. Não é de se admirar, crescemos com essa mentalidade de que o meio natural é algo separado dos humanos. Mas com essa visão, nós somos o que? Robôs? Seres não naturais?

Segundo diversos autores, cientistas, filósofos e estudiosos, esse senso de separação é a raiz das crises que enfrentamos hoje.

As crises que vivemos nascem desde as bases de nossa percepção, quando deixamos de ver o planeta como vivo, quando deixamos de reconhecer que somos inseparáveis desse todo que nos envolve. Vivemos as consequências de nossa própria ignorância e desconexão, por termos construído um senso de identidade totalmente apartado de si e da própria Terra. Vivemos o reflexo de séculos de separação, domesticação e colonização, que nos fizeram acreditar que somos uma espécie superior e separada das demais. Como disse Thich Nhat Hanh:

estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação”

E também para resgatar nossa compreensão de que somos a natureza tomando consciência de si mesma. Presenciamos os sintomas de uma Terra adoecida como  reflexo de seres humanos também doentes, pois saúde planetária e individual caminham juntas. 

Se a crise ecológica é em sua essência uma crise espiritual coletiva, e portanto se o processo de destruição do planeta é um processo de autodestruição, o que podemos aprender com isso e como podemos encontrar caminhos para seguir adiante?

Estamos sendo confrontados a ressignificar nossa compreensão de mundo, quem somos e o que fazemos aqui. Como David Loy coloca no livro ECODARMA: Ensinamentos Budistas Para a Crise Ecológica, o cerne do problema é que não acreditamos mais ter nenhum papel a desempenhar no planeta.

A grande maioria dos problemas que enfrentamos hoje são sintomas de uma visão de mundo mecanicista, reducionista, fragmentada e linear, que criou uma visão utilitária da vida: o planeta como um conjunto de objetos separados e sem sentido. Dessa forma torna-se “natural” que nós, seres humanos, em teoria também meros acidentes genéticos sem nenhum papel a desempenhar em um mundo morto, nos comportemos como exploradores deste planeta que existe para nos servir. Nesse contexto, o abuso, o poder e o controle sobre a natureza se tornam justificáveis e aceitáveis na medida em que não enxergamos o seu valor intrínseco. Na verdade, quase tudo o que percebemos e com os quais nos relacionamos é visto como um meio para obter algo, a visão utilitarista da vida dominou todas as nossas relações. Pessoas, animais, rios, montanhas, florestas, ganharam título de  recursos  para satisfazer nossos desejos. 

No entanto, como diz Ailton Krenak:

a vida não é útil“.

E para mudarmos o rumo do futuro do planeta teremos que desconstruir e reconstruir a relação entre o eu e o mundo. Torna-se urgente reconstruir nossos valores, padrões habituais de comportamento e nossas motivações, que caminham junto com as transformações coletivas que tanto almejamos, pois os caminhos de transformação pessoal e coletivos não são separados um do outro. As grandes revoluções acontecem quando os padrões de pensamento mudam, quando começamos a encontrar o mundo de outra forma, despertando para novas formas de viver, ser e estar nesse planeta.

E você pode estar me perguntando: Mas qual o caminho, na prática, para começarmos a enxergar a vida de outra forma?

Bem, não existe nenhuma resposta pronta ou caminho pré-estabelecido que funcione para todos, mas trago aqui as etapas da espiral do Trabalho que Reconecta, metodologia desenvolvida por Joanna Macy, que está presente no livro Esperança Ativa, para nos guiar nesse processo de “reconexão”. 

Vamos lá?

PASSO 1: Sentir gratidão

A palavra gratidão teve seu sentido esvaziado nos últimos tempos, mas falo aqui de um sentimento profundo de ser grato pela vida, não pelo o que se tem ou pelas conquistas materiais. A gratidão pode ser uma das atitudes mais subversivas dos tempos atuais. 

Se percebemos a nós mesmos como seres separados de todo o resto do universo, o sentimento de falta e não suficiência predomina, bem como uma enorme ansiedade sobre qual é o sentido da vida. Esse ego então vai agir no mundo a partir das suas necessidades para suprir suas carências, gerando um individualismo exacerbado e uma visão limitada de si que exclui as relações interdependentes inerentes à vida. 

A vida se torna uma luta em que apenas os mais aptos e fortes sobrevivem e prosperam, onde precisamos eliminar, dominar e combater esse “outro” diferente de nós para termos sucesso em um mundo marcado pela competição. 

E assim seguimos insatisfeitos, cansados e correndo sem rumo, lutando contra nós mesmos e com os outros. O senso de falta nos impulsiona a focar em um futuro que esperamos que resolva nossas aflições conforme buscamos atingir nossos objetivos, nos desconectando do presente.

A modernidade que nos trouxe o afastamento entre natureza e cultura criou essa crença de que vivemos em um universo mecanicista dessacralizado, com o qual não temos nenhuma relação íntima e tampouco nenhuma responsabilidade. 

A visão que enxerga a vida como um conjunto de coisas nos fez querer dominar para possuir, onde a ideia de propriedade (principalmente da terra) justifica a exploração. A terra que durante milênios representou para muitas culturas uma fonte de vida, sustento e portanto celebração, se tornou mais uma “coisa” a ser dominada e explorada conforme o desejo de seu proprietário.

No entanto, nossos ancestrais sabiam se relacionar com a terra a partir de um sentimento de íntima reciprocidade e pertencimento a partir de culturas baseadas na celebração da vida. Agradeciam pela colheita e pelos animais que caçavam, seus rituais de passagem os conectavam aos ciclos naturais e o sentido de responsabilidade os faziam retirar apenas o necessário para a sua sobrevivência. Portanto esse senso coletivo de separação que nos assola bem como a alienação do mundo natural podem ser curados a partir do reconhecimento de que somos parte integrante de uma Terra viva. 

Joanna Macy nos lembra que é um ato político subversivo nos sentirmos gratos apenas por estarmos vivos.

A gratidão é também um antídoto ao consumismo ao trazer liberdade em uma sociedade que impõe a insatisfação constante e a visão de escassez. Quando percebemos que somos sustentados pela vida, reconhecendo a existência de todos os outros seres para que a nossa sobrevivência também seja possível, percebemos a dádiva do momento presente.

A gratidão nos motiva a agir no mundo e a retribuir para manter a vida, nos convidando a um ciclo de regeneração. O encantamento, o amor, o sentido do sagrado que estão na base desta prática geram conexão e são um estímulo ao cuidado que nos move em direção aos nossos poderes mais profundos

Convite para a prática da gratidão:

Agora te convido a fazer uma retrospectiva do seu dia na sua tela mental. Lembre-se, perceba e sinta como foi o seu dia hoje conectando-se com cada pequeno evento pelo qual você se sente grato ou grata. E então, volte ainda mais no tempo vasculhando a última semana, os últimos meses.  Estamos vivendo tempos desafiadores, mas certamente há muito também a celebrar. Quais são os eventos, pessoas ou coisas que te trazem esse sentimento de gratidão?

Você  pode anotar em um papel completando esta frase aberta: Neste momento o que eu mais agradeço por estar vivo  é…. 

PASSO 2: Honrar  a nossa dor

David Loy nos convida a refletir: “E se for tarde demais para evitar o colapso? Se toda a vida como a conhecemos chegará ao fim, porque devemos nos preocupar sobre como vivemos agora?” 

Thich Nhat Hanh e Joanna Macy concordam que para a nossa transformação acontecer também precisamos aprender a assumir e honrar a nossa dor pelo mundo, reconhecendo-a como uma resposta natural a esse momento sem precedentes na história. 

Qual o caminho para lidar com a dor? O que perdemos quando não nos damos tempo para sofrer o luto por tudo aquilo que morre? Será que compreender que a vida não só de nós humanos mas também a da Terra terá um fim, poderia nos trazer uma outra perspectiva?

Não tem como negar que a dor nos atravessa, com tanto sofrimento diante e ao redor de nós, mesmo que muitas vezes ainda estejamos inconscientes disso ou correndo demais para perceber. O desespero, a raiva ou o medo é uma resposta natural que surge diante de um momento sem precedentes na história. Apesar de ainda “mal vista” por muitos, a dor nos revela aquilo que nos importamos, nos revela nosso sentido de pertencimento. O problema não está em sentir a dor do mundo, mas sim em reprimi-la, com o intuito de evitar o sofrimento. Nossa incapacidade de lidar com a dor do mundo (que também é nossa), é o que pode se manifestar como apatia, ou no seu extremo oposto como desespero e angústia.

A apatia e a negação tornaram-se reflexos de uma sociedade que evita entrar em contato com o que incomoda: como George Marchall explica, “o cerne é que não aceitamos as mudanças climáticas porque desejamos evitar a ansiedade que elas geram e as profundas mudanças que exigem.” Nos anestesiamos para nos proteger, amortecendo nossos sentimentos e vivendo a normalidade de nossas vidas sem nos envolver demais com esses assuntos. Podemos até estar preocupados com as mudanças climáticas, mas seguimos nossas rotinas sem nenhuma mudança propositiva, o que podemos chamar de dissonância cognitiva.

Constantemente bloqueamos a nossa dor por acreditarmos que não daremos conta de tamanho sofrimento ou por acharmos que ficaremos paralisados ao nos sentirmos impotentes diante dela. A sociedade de crescimento industrial patologizou a dor e tornou-a uma responsabilidade individual apenas. Porém, quando nos permitimos entrar em contato com nossas dores, principalmente em coletivo, acontece  um processo que Joanna Macy chama de desprivatização da dor. Uma vez que abrimos o campo para enlutar pelo sofrimento do mundo, a noção delimitada do self apartado e fragmentado do todo se expande.  Quando abrimos espaço para que a dor do mundo passe por nós, nos abrimos também para o sentido de interconexão com a teia da vida e percebemos que não estamos sozinhos. Enquanto a apatia nos traz a sensação de congelamento por esse “não sentir”, a compaixão que é a nossa capacidade de sofrer com o mundo, abre espaço para o sentido da vida, para a gratidão. 

Nas palavras de Joanna Macy, “é quando rejeitamos nossa dor pelo mundo que ela se torna disfuncional. Agora sabemos o que nos custa reprimi-la e como esse custo é medido em dormência e em sentimentos de isolamento e impotência. Ela também é medida no ódio e nas suspeitas que nos separam, pois a dor reprimida busca bodes expiatórios e se volta, com raiva, contra outros membros da sociedade. Também se volta para dentro em depressão e autodestruição, por meio do uso de drogas e suicídio. Mas essa dor, como qualquer emoção, é dinâmica – uma vez experimentada, flui através de nós. É apenas a nossa recusa em reconhecer e senti-la que a mantém no lugar.”

Quando nos permitimos sentir as feridas do planeta, a dor é inevitável, e esta pode se tornar uma grande força propulsora de ações comprometidas no mundo. A  dor da terra se torna a minha dor, que resgata um senso de ética, cuidado e compromisso com outras espécies. Deixamos de viver em função da autorrealização apenas, despertando em nós o senso de self ecológico que se enxerga como parte de um mundo vivo do qual depende. A dor pode ser um portal, para descobrirmos nosso pertencimento e interconexão com todas as formas de vida.

Convite para a prática de honrar a dor:

Pare por um momento para se conectar com as dores que você sente diante de tudo o que temos vivido coletivamente. Se quiser feche os olhos por um momento e se permita entrar em contato com todos os sentimentos que emergirem. Apenas respire. 

Agora complete a frase aberta abaixo anotando-a em um papel: 

Vivendo nessa época de crise global, o que é mais difícil para mim é….

Alguns sentimentos que surgem quando penso sobre isso são…

De que forma podemos começar com pequenas ações a nos conectar e nos auto-regular diante de tanto estresse e incertezas? Talvez através de uma prática diária de autopercepção envolvendo os sentimentos, percebendo o corpo, estando mais em silêncio, pausando para presenciar o que se passa internamente sem julgamento. Ou trocando com outras pessoas, criando uma rede de apoio, pedindo escuta e suporte para quem você confia. 

A responsabilidade é nossa habilidade de responder e só podemos responder apropriadamente após termos sentido (mental, físico e emocionalmente) e criado sentido daquilo que nos atravessa, caso contrário estamos apenas reagindo.

PASSO 3: Ver com novos olhos

“Não podemos retornar ao mundo natural porque nós nunca o deixamos. (…) O meio ambiente não é apenas um “meio ambiente”, ou seja, não é apenas o lugar onde nos localizamos por acaso. Em vez disso, a biosfera é a base de onde e na qual surgimos. Nós não estamos na natureza, nós somos a natureza. A terra não é apenas nossa casa, é nossa mãe. Antes de torná-la um recurso, ela é A Fonte.” (David Loy em ECODARMA) 

A qualidade da nossa atenção, da nossa consciência e do nosso olhar, moldam o mundo que experimentamos. Precisamos desconstruir e reconstruir o sentido do eu, a nossa relação entre o eu e o mundo para aprendermos a nos relacionar com um universo vivo. Quando percebemos que não somos separados uns dos outros e nem da Terra, nossa mãe, compreendemos o real sentido de nossa interdependência com a teia da vida, e isso muda tudo. Na perspectiva da ecologia profunda, todos os seres estão aqui para cumprir a sua jornada e possuem seu valor intrínseco. Quando olhamos a partir de uma perspectiva ecocêntrica, nos sentimos parte de um mundo vivo, reconhecemos as sabedorias dos outros seres e nossa participação nos ecossistemas, pois somos o espelhamento desses sistemas vivos. Ampliamos assim nosso senso de identidade que inclui uma história muito mais extensa sobre quem e o que somos. Não basta compreendermos isso cognitiva e racionalmente, precisamos de uma experiência profunda, um questionamento profundo e um compromisso profundo, para incorporarmos uma nova ética no mundo.

Na visão de mundo animista, o mundo natural fala e é dotado de sabedoria, inteligência e iniciativa, com os quais precisamos aprender e nos relacionar de maneira recíproca. Como David Loy nos diz, “eles não pararam de falar, mas não somos mais capazes de ouvir o que estão dizendo”. 

O filósofo David Abram nos incentiva a retornar às nossas experiências sensoriais e a compreender, interagir e ver o mundo como uma teia interconectada. Quando ressensibilizamos nossos sentidos, resgatamos a profundidade dos vínculos que temos com o mundo mais que humano e voltamos a experimentar a vida com novos conhecimentos. Despertamos para a plenitude da experiência humana e da intimidade esquecida entre nós e o mundo vivo que nos envolve. Retornamos a um senso de pertencimento com o cosmo, passando de um observador alienado à um participante ativo da realidade.

Como a “nova cosmologia” propõe, somos o universo tomando consciência de si mesmo. Estamos aqui para ajudar a Terra a curar-se enquanto nós nos curamos. Enquanto agimos para curar a nós mesmos, a Terra se cura através de nós. A partir dessa perspectiva, podemos nos abrir para adentrarmos o tempo profundo e escutar as vozes não humanas, de nossos ancestrais e das futuras gerações. A cada escolha que fizermos podemos pensar, como isso vai afetar os demais seres que compartilham essa casa Terra comigo?

Convite para a prática para ver com novos olhos:

Nesta prática, iremos nos conectar com esse senso de identidade mais amplo e as novas perspectivas que surgem quando nos reconhecemos natureza. Praticar essa habilidade de pensar e sentir junto com o mundo, nos permite ouvir as vozes de outros seres e da própria Terra falando através de nós, e isso nos impulsiona. 

Imagine que a Terra pudesse falar com você agora, o que ela diria? 

Comece fechando os seus olhos por um momento e se conecte com esse sentimento de pertencimento à uma grande teia da vida, com seus múltiplos seres e nós como participantes dessa família evolutiva de mais de 3,8 bilhões de anos. Imagine que toda essa sabedoria acumulada também está em você, nas informações que cada célula que preenche o seu corpo carrega. 

Com essa sensação corporificada, pegue uma folha de papel em branco e escreva uma carta para si mesmo/ mesma, como se fosse a Terra falando. Você pode começar assim:

“Querido(a) [insira seu nome]: 

Aqui é a sua mãe gaia escrevendo….”

Continue esta carta com as palavras que surgirem naturalmente, sem pensar muito, deixando a sua mão escrever. Você pode dar voz à outros seres se desejar e pode preferir começar esta carta usando outras palavras, fique a vontade. 

Depois que terminar, releia a carta e perceba se algo acontece internamente, quais os sentimentos e sensações que surgiram.

PASSO 4: Seguir adiante:

“O que vc faz quando nada do que fizer pode adiantar?”

– Shin’ichi Hisamatsu 

Uma coisa é certa, nós não sabemos o que acontecerá no futuro, mas nem por isso devemos nos paralisar. Alguns preveem que é tarde demais para evitar pontos de inflexão, outros acreditam que ainda podemos mudar o rumo catastrófico que nós mesmos criamos. Temos motivos de sobra para despertarmos e realizarmos mudanças simplesmente por podermos presenciar a dádiva de estarmos vivos no presente, como Joanna coloca, com o pouco tempo que sobra, podemos despertar mais.” 

Podemos nos perguntar porque será que escolhemos estar vivos em tempos tão confusos e desafiadores? Qual o papel de cada um nesse momento de transição tão profundo? 

Joanna Macy nos convida a agir, não temos tempo para decidir se estamos otimistas ou não, apenas temos um trabalho a fazer e isso nos traz ao momento presente. Se nós não sabemos se chegaremos a um futuro melhor, sabemos em que mundo queremos viver? Quando nos sentimos vítimas, culpados ou fracos para lidar com o que está acontecendo ficamos na paralisia, do outro lado está o pânico, ambos nos impedem de realizar o que queremos. Há uma escolha que precisa ser feita a cada momento: nos guiarmos a partir do medo e da dúvida ou do amor pela vida.

Nossa tarefa é fazer o melhor que pudermos sem nos apegar aos resultados, isso quer dizer, sem saber se nossas ações farão alguma diferença.Não sabemos se o que fazemos é importante, mas sabemos que é importante fazê-lo.” 

O ativismo espiritual envolve uma prática dupla, interna e externa, que se reforça mutuamente. Segundo Loy, para o bodisatva ajudar os outros se torna parte essencial de seu próprio amadurecimento espiritual. Também não podemos esquecer de refletir sobre nossas próprias incoerências. Será que de alguma forma também corroboramos e sustentamos o sistema que tanto tentamos mudar? Isso nos torna mais pacientes e compassivos também com os demais. 

Precisamos de mudanças em todos os níveis, por isso o papel de cada um é tão importante, para juntos podermos mitigar os danos já causados ao planeta e evitar maiores destruições, construir estruturas alternativas que substituam as atuais e as tornem obsoletas, e transformar nossa consciência individual e coletiva. 

Que não deixemos que a urgência nos tire a capacidade de nos encantar com o simples, com o sagrado e com a presença do agora. Que possamos contar com o poder que nasce da comunidade para nos fortalecer em coletivo e agir em prol do que desejamos que aconteça, isso é esperança ativa. Podemos assumir nosso papel como agentes da regeneração, cada ser exercendo a sua singularidade, com suas habilidades e potências, pois todos temos um papel importante a cumprir nesse planeta. Você pode se perguntar: pelo que me importo? Do que quero cuidar? A maneira como vivo minha vida apoia as mudanças que desejo que aconteçam? Esse será o guia para o seu ativismo. 

A Grande Virada começa com uma nova visão, sonhos e visões nos dão direção para onde nos mover. Resgatar nossa capacidade de reimaginar futuros possíveis nos move e nos tira da impotência que os cenários distópicos criam. 

Convite para a prática de seguir adiante:

Esteja em um lugar tranquilo e silencioso, de preferência onde você possa estar consigo mesmo/mesma e reflita sobre esta pergunta: 

Se você estivesse livre do medo e da dúvida, o que você escolheria fazer pela transformação de nosso mundo? Qual é a sua contribuição para Gaia? 

Se desejar, feche os olhos por um instante e se conecte com o seu coração. Como ele responde à essa pergunta? Sem se deter aos julgamentos que sua mente cria, escreva em um caderno esse chamado interno. 

Depois perceba esse desejo ou impulso que te habita como um norte, uma bússola interna que guia seus próximos passos rumo às ações e mudanças que te chamam, para que você se pergunte: “o que seria necessário para que isso acontecesse? Quais as forças e ferramentas que eu já possuo?” 

As intenções nos ancoram e nos relembram tudo aquilo que nos move e nos motiva a seguir adiante mesmo diante das incertezas, as práticas se tornam hábitos que escolhemos para agirmos alinhados à nossa alma e servindo à algo maior do que nós. E precisamos de rede de apoio que nos sustente em nosso caminhar, nos nutra, nos dê resiliência e força, nos relembrando de nosso poder mútuo quando estamos em coletivo. 

Estes exercícios podem ser feitos de tempos em tempos e fazem parte de uma espiral contínua que pode ser revisitada todos os dias sentindo gratidão pela vida, honrando as dores do mundo, vendo com novos olhos a vida ao redor e seguindo adiante com mais força e motivação. 

Encontrar o que te entusiasma, renovar as energias constantemente e se nutrir do que importa é parte essencial desse trabalho de ativistas do que esperamos para o mundo.

Compartilha comigo suas percepções, sensações e sentimentos que reverberaram destas práticas, vamos trocar e nos fortalecer em comum-unidade! 

“O que nos ajuda a encarar essa confusão que vivemos é o entendimento de que cada um de nós tem algo de significativo para oferecer, uma contribuição a fazer. Ao enfrentarmos o desafio de desempenhar nosso melhor papel, descobrimos algo precioso que enriquece nossas vidas e contribui para a cura de nosso mundo. Em uma ostra, em resposta a um trauma, cresce uma pérola. Nós crescemos e oferecemos nossa dádiva de Esperança Ativa.”

(Joanna Macy e Chris  Johnstone em Esperança Ativa) 


Nathalia Manso atua como facilitadora de processos de reintegração com a natureza externa e com a natureza interior, favorecendo um relacionamento mais profundo com o mundo natural através de experiências, vivências e imersões com base na Ecologia Profunda, no Trabalho que Reconecta, Ecopsicologia, fenomenologia, paradigma regenerativo, dentre outras abordagens e metodologias. Também desenvolve jornadas de aprendizagem e de desenvolvimento interno e relacional para coletivos e organizações em transição para culturas regenerativas. Ecotuner (Ecopsicologia aplicada) em formação, facilitadora do Trabalho que Reconecta e do Gaia Education, designer para a sustentabilidade, pós graduada em Pedagogia da Cooperação, atua há 9 anos em projetos com enfoque ecossistêmico e regenerativo para a transformação individual e coletiva.